O (DES)enredo de uma traição

>> 21 de mai. de 2010

Esta é uma leitura inicial de um personagem traído da literatura.
Primeiro, para deixar claro, não gosto da palavra corno. Acho feia, pesada, deselegante. Embora, goste da palavra unicórnio, pois lembra logo aqueles seres fantásticos, lindos. Mas, corno não. Esta palavra poderia ser grafada com um prefixo -con e ficaria assim: concónio. Mais bonita, não?
O fato é que para neologismo já demonstrei que não tenho talento algum. Deixo isso para o genial Guimarães Rosa. Aliás, a leitura é sobre um personagem seu. Jô Joaquim, do conto Desenredo. Um personagem tão paciente, tão compreensivo que só comparado mesmo a Jô, aquele outro da Bíblia que tudo sofreu, a tudo suportou em nome do amor.
Jô Joaquim também sofreu, também suportou em nome do amor. Não por amor a Deus, como o leitor já deve ter intuído, mais por amor a Livìria, Rivília ou Irlívia, morena mel e pão. Aliás, casada. Era um amor às escondidas, porque o marido se fazia notório, na valentia. Foi amatemático, alógico, o amor de Jô Joaquim.
O leitor deve achar que cometi um engano ao dizer que Jô Joaquim era o traído da história. Acontece que o trágico não vem a conta-gotas. Apanhara o marido a mulher: com outro, um terceiro... Huum.
Ora, a traição aqui não é da infidelidade conjulgal, mas sim a infidelidade do amor. Este sentimento que muitas vezes não segue regras, não reconhece convenções. E você  leitor, assim como Jô Joaquim deve estar derrubadamente surpreso. No absurdo como aceitar?
Jô Joaquim proibia-se de ser pseudopersonagem, em lance de tão vermelha e preta amplitude.
Mas
.

O tempo é engenhoso. E com à Providência praz, o marido faleceu. Soube logo Jô Joaquim. Nela acreditou num abrir e não fechar de ouvidos. Casaram-se.
E você, meu amigo, me pergunta: ele casou com a traidora? Já aconteceu uma vez, a probabilidade de acontecer de novo é muito grande. E eu respondo: sim, é verdade. Se tiver algum leitor ai. Ora, será que tenho leitor?... bom, responda: qual a probabilidade? Use a lógica, ciência fundada por Aristóteles. A mesma que Jô Joaquim ignorou.
O que eu posso dizer é que o abominoso é imprevisível. Mas, neste caso não era tão imprevisível assim. Da vez, Jô Joaquim foi quem a deparou, em péssima hora: traído e traidora. De amor não a mato. Expulsou-a apenas. Jô Joaquim sentiu-se quase criminoso, reincidente.
Mais.
De sofrer e amar, a gente não se desafaz.
Nosso querido personagem entrou numa empreitada, eu diria quase impossível, redimir, remir. Aquilo que fora tão claro como água suja. Jô Joaquim operava o passado. 
Haja o absoluto amor – e qualquer causa se irrefuta...
Este conto é um dos meus preferidos. Não só pelo enredo ou “desenrdo”, mas também , por suas metáforas maravilhosas. Sou tão apaixonada que uso uma na descrição do blog. “...olhos de viva mosca”. Outra genial é: “sutil como uma colher de chá”, “grude de engodos”. “Fora tão claro com água suja”.


Ficou querendo mais, vai à biblioteca mais próxima e devora (no bem sentido da palavra) Terceiras Estórias. São 44 contos curtinhos,

Rosa, João Guimarães. Tutaméia: terceiras estórias, ed. 4, RJ: Olympio, 1976.

2 comentários:

Anônimo,  22 de mai. de 2010, 17:00:00  

Parabéns, por mais um texto maravilhoso! Eu sempre achei que Rosa fosse difícil de ler, mas você me deixou com uma vontade enorme de ler este conto. É polêmico a questão da traição,mas ficou um pouco cômico no acha? O que só vem a corrobora para genialidade de Rosa.

Lilian,  27 de mai. de 2010, 13:47:00  

Olá querida amiga Nilda,

Gostei muito da forma como escreveu a sintese do conto de João Guimarães Rosa.
Parabéns pelo post.
Já estou seguindo-a e levei seu banner para o meu blog.
Beijo no coração.
Carinhoso e fraterno abraço,
Lilian

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