Barroco
>> 15 de abr. de 2010
Continuando a série: Estéticas em confronto...
Em fins do século XVI e durante todo o XVII estava vigente uma arte interpretada por muitos como extravagante, em que a clareza e pureza são, por hora, abandonadas, cedendo espaço aos mais vários tipos de ornatos e distorções. A essa arte atribuiu-se o epíteto “Barroco”.
Sob o signo de Barroco inscreve-se uma arte irregular, que expressa, através do esforço e dificuldade que suscita sua interpretação, a tensão que os autores transmitiam.
Segundo Afrânio Coutinho, o movimento em questão representa um desenvolvimento do classicismo renascentista para um estilo posterior, visual, que “não revela sua arte, mas a dissimula”. No contexto barroco ocorre o abandono do linear em favor do pictórico, a arte é composta em profundidade, com partes subordinadas ao todo, com pouca claridade. As obras costumam inserir o observador no seu campo de visão e transmitir-lhe suas angústias.
O Barroco tenta a fusão do ideal medieval e de valores renascentistas; desta forma, exprime-se o caráter dual do movimento, que se interpolava entre o espiritual e o terreno, entre a pureza da alma e as satisfações carnais, entre o teocêntrico e o racionalista, a religiosidade e o erotismo. Em literatura, esse conflito é assinalado, sobretudo, pelo uso de antíteses, metonímias, personificações, refletindo sempre os conflitos e a emotividade do homem que tentava conciliar pólos até então inconciliáveis: a razão e a fé. Com isso podemos dizer que o Barroco configura a consciência do efêmero, do transitório, a angustia de uma existência dividida entre o humano e o divino.
Dessa maneira, defini-se como Barroca o período literário subsequente ao Renascimento. Representa não um declínio, mas o desenvolvimento natural da Classicismo renascentista para um estilo posterior. Este estilo, diferente do renascimento, não admiti perspectivas não visuais e não revela sua arte, mas a dissimula. (CÂNDIDO, )
Afrânio Coutinho, em sua Introdução à Literatura no Brasil, faz referência direta aos gêneros literários utilizados no Barroco.
“Os gêneros literários então mais cultivados são o diálogo, a poesia lírica, a epopéia, ao lado da historiografia e da meditação pedagógica, das quais o Barroco retira o máximo partido, misturando o mitológico ao descritivo, o alegórico ao realista, o narrativo ao psicológico, o guerreiro ao pastoral, o solene ao burlesco, o patético ao satírico, o idílico ao dramático.” (COUTINHO, p.80)
Diz mais:
“Tanto na lírica quanto na mística, existe essa sensualização de assuntos religiosos, embora muita vez dissimulada sob toda a casta de disfarces ou artifícios retóricos e estilísticos, distorções ou obscuridades, tão do gosto da época.” (COUTINHO, p.102)
O homem barroco é um homem que se culpa, que ressalta em sua arte os aspectos mais cruéis, terríveis e repugnantes da condição humana. É, por isso, um homem que se penitencia e vive os martírios e agúrias de seus pecados, sentindo sempre sua vida dramaticamente. Mais uma vez citaremos Coutinho, que faz referência também a esse aspecto.
“(...) muitas personagens barrocas, que vivem entre a virtude e a fraqueza, entre a pureza e o pecado, entre o rigorismo moral ou a luta árdua e a queda e o arrependimento. Não há mediocridade na sua alma, porque Deus está presente, no seu coração e espírito, mesmo quando enleados pelo pecado” (COUTINHO, p.107)
Assim sendo, o Barroco se consolida como o movimento literário que mais expressa as tensões, inquietudes, angústias, contradições, conflitos e dualidades vividas pelo homem do século XVII. Pois, apesar do progresso social e cultural que o renascimento trouxe com ele, ainda persistiam estruturas medievais. Centrados sobre o poder da Igreja católica.
Surgi o movimento reformista protestante, que se rebela contra o poder da Igreja católica. Esta perdendo fieis, inicia um novo movimento chamado de Contra Reforma. Este movimento vai se servir da arte para seus propósitos ideológicos. Por isso, não podemos dizer que o barroco é a arte da Contra Reforma, mas que este movimento se utilizou desta arte para disseminar sua ideologia, já que a estética barroca servia aos propósitos da Igreja.
O movimento barroco em Portugal é marcado, na primeira metade do século XVII, pelo domínio espanhol, e por sua posterior libertação, no ano de 1640. Durante
sua vigência cultivaram-se a oratória, a prosa doutrinária, a poesia, a historiografia, a epistolografia e o teatro.
“Os gêneros literários então mais cultivados são o diálogo, a poesia lírica, a epopéia, ao lado da historiografia e da meditação pedagógica, das quais o Barroco retira o máximo partido, misturando o mitológico ao descritivo, o alegórico ao realista, o narrativo ao psicológico, o guerreiro ao pastoral, o solene ao burlesco, o patético ao satírico, o idílico ao dramático.” (COUTINHO, p.80)
Diz mais:
“Tanto na lírica quanto na mística, existe essa sensualização de assuntos religiosos, embora muita vez dissimulada sob toda a casta de disfarces ou artifícios retóricos e estilísticos, distorções ou obscuridades, tão do gosto da época.” (COUTINHO, p.102)
O homem barroco é um homem que se culpa, que ressalta em sua arte os aspectos mais cruéis, terríveis e repugnantes da condição humana. É, por isso, um homem que se penitencia e vive os martírios e agúrias de seus pecados, sentindo sempre sua vida dramaticamente. Mais uma vez citaremos Coutinho, que faz referência também a esse aspecto.
“(...) muitas personagens barrocas, que vivem entre a virtude e a fraqueza, entre a pureza e o pecado, entre o rigorismo moral ou a luta árdua e a queda e o arrependimento. Não há mediocridade na sua alma, porque Deus está presente, no seu coração e espírito, mesmo quando enleados pelo pecado” (COUTINHO, p.107)
Assim sendo, o Barroco se consolida como o movimento literário que mais expressa as tensões, inquietudes, angústias, contradições, conflitos e dualidades vividas pelo homem do século XVII. Pois, apesar do progresso social e cultural que o renascimento trouxe com ele, ainda persistiam estruturas medievais. Centrados sobre o poder da Igreja católica.
Surgi o movimento reformista protestante, que se rebela contra o poder da Igreja católica. Esta perdendo fieis, inicia um novo movimento chamado de Contra Reforma. Este movimento vai se servir da arte para seus propósitos ideológicos. Por isso, não podemos dizer que o barroco é a arte da Contra Reforma, mas que este movimento se utilizou desta arte para disseminar sua ideologia, já que a estética barroca servia aos propósitos da Igreja.
O movimento barroco em Portugal é marcado, na primeira metade do século XVII, pelo domínio espanhol, e por sua posterior libertação, no ano de 1640. Durante
sua vigência cultivaram-se a oratória, a prosa doutrinária, a poesia, a historiografia, a epistolografia e o teatro.
As cartas constituem um dos pontos mais altos do Barroco Português, uma vez que refletem as oscilações de uma confusão mental, a confissão de impulsos
ora carnais ora espirituais, a um tempo eróticos e castos. Falavam a linguagem do coração, desarticulada e ardente, sensível, desesperada.
A prosa da sóror não pertence ao rol das boas expressões do gongorismo. É, todavia, algo que provém da essência da personalidade da personagem, que dela eclode sem limitações. O sentimento flui como torrente desordenada, como uma volúpia reprimida e ardente ainda. É, como assinala Maria da Graça Freire, “o amor que se alimenta de si mesmo, que não precisa de ser correspondido, o amor em estado puro, o amor adoração.” Nelas transparecem um amor incondicional e exarcebado da freira além de toda a dor e sofrimento causados pela ausência e abandono do cavaleiro.
ora carnais ora espirituais, a um tempo eróticos e castos. Falavam a linguagem do coração, desarticulada e ardente, sensível, desesperada.
A prosa da sóror não pertence ao rol das boas expressões do gongorismo. É, todavia, algo que provém da essência da personalidade da personagem, que dela eclode sem limitações. O sentimento flui como torrente desordenada, como uma volúpia reprimida e ardente ainda. É, como assinala Maria da Graça Freire, “o amor que se alimenta de si mesmo, que não precisa de ser correspondido, o amor em estado puro, o amor adoração.” Nelas transparecem um amor incondicional e exarcebado da freira além de toda a dor e sofrimento causados pela ausência e abandono do cavaleiro.
Aos poucos as cartas vão revelando o desespero da freira para reencontrar seu amado, a conformação e apego ao o sofrimento, a sua solidão, pedidos incessantes de retorno e a vontade de reter o amante ao seu lado.
Logo no inicio da primeira carta, Mariana expressa a dor sentida pelo abandono e o ódio despertado. Nessa carta, a freira apresenta contradições em relação aos seus sentimentos, ora não compreende o abandono, se revolta, sente-se traída: “Desgraçado! foste enganado e enganaste-me com falsas esperanças. Uma paixão de que esperaste tanto prazer não é agora mais que desespero mortal, só comparável à crueldade da ausência que o causa”. [...} “Como é possível que a lembrança de momentos tão belos se tenha tornado tão cruel? E que, contra a sua natureza, sirva agora só para me torturar o coração?”, ora conforma-se, aceita sua dor: “ Parece-me, no entanto, que até ao sofrimento, de que és a única causa, já vou tendo afeição”, nega-se a esquecê-lo: “ Mas não, não me resolvo, a pensar tão mal de ti e estou demais empenhada em te justificar”. Apesar do tom melancólico, Mariana ainda guarda a esperança de reencontrar seu amor e de permanecer amando-o na expectativa de um retorno.
Logo no inicio da primeira carta, Mariana expressa a dor sentida pelo abandono e o ódio despertado. Nessa carta, a freira apresenta contradições em relação aos seus sentimentos, ora não compreende o abandono, se revolta, sente-se traída: “Desgraçado! foste enganado e enganaste-me com falsas esperanças. Uma paixão de que esperaste tanto prazer não é agora mais que desespero mortal, só comparável à crueldade da ausência que o causa”. [...} “Como é possível que a lembrança de momentos tão belos se tenha tornado tão cruel? E que, contra a sua natureza, sirva agora só para me torturar o coração?”, ora conforma-se, aceita sua dor: “ Parece-me, no entanto, que até ao sofrimento, de que és a única causa, já vou tendo afeição”, nega-se a esquecê-lo: “ Mas não, não me resolvo, a pensar tão mal de ti e estou demais empenhada em te justificar”. Apesar do tom melancólico, Mariana ainda guarda a esperança de reencontrar seu amor e de permanecer amando-o na expectativa de um retorno.
A freira começa sua segunda carta admitindo ser um erro ainda preservar seu amor e sofrimento, principalmente expor ao causador de toda sua desgraça. Há momentos em que admite o papel vulgar que desempenha, mas que não consegue evitar escrever e implorar a atenção de seu amado. Acredita que é dever dele, uma vez causador de seu sofrimento, participar de todo seu tormento. Através de suas palavras, Mariana nos faz perceber como esse amor forte, não correspondido, nos torna egoístas e mesquinhos: “Como poderia esperar que ficasse para sempre em Portugal, renunciasses à sua carreira e ao teu país para não pensares senão em mim?”. Em toda sua carta ela culpa-o pela infelicidade e a sua impotência para deixar de sofrer. Sente-se incompreendida, rejeitada e solitária dentro de seu próprio sofrimento.
“Esperava que me escrevesses de toda a parte por onde passasses e que as tuas cartas fossem longas; que alimentasses a minha paixão com a esperança de voltar a ver-te.” Mariana começa a sentir piedade de si mesma: “Ai, como sou digna de piedade por não partilhar contigo as minhas mágoas, e ser só minha a desventura!”. Nessa carta, percebe-se o abalo para a sociedade que foi o amor de Mariana e a exposição que ela fez de sua paixão, de seus desejos e pensamentos. “[...] perdi minha reputação, expus-me a cólera de minha família, a severidade das leis deste país para com as freiras [...]”.
Percebe-se na quarta carta, como a freira usa a sua dor e seu sofrimento como estratégia para comover o cavaleiro. Se antes era vítima do desprezo, alcançou a comoção de todos: da sua família, das freiras do convento, da sociedade, menos de seu amado. Ele parece indiferente ao sofrimento e as chantagens
emocionais da freira. Diante do desprezo, a freira cogita o adeus ao seu amor, e despede-se.
emocionais da freira. Diante do desprezo, a freira cogita o adeus ao seu amor, e despede-se.
Na quinta e última carta, Mariana aparece conformada com a impossibilidade de concretizar sua fantasia amorosa. Justifica seu encantamento e a paixão a primeira vista pelo fato de ter vivido presa desde a infância no convento. Não havia antes conhecido ninguém tão belo e carinhoso. A passagem do tempo ficou mais nítida na ultima carta, em que a freira amadurece, e mais segura e consciente do que passou, coloca finalmente um fim a sua trágica história de amor.
Assim, podemos compreender o Barroco como a arte que consiste em tocar diretamente os corações, pois ele tenta a conciliação, a incorporação, a fusão do ideal medieval, com os novos valores que o Renascimento divulga.Por A.N.Souza
Referências bibliográficas
ALCOFORADO, Mariana. Cartas. Org. Maria da Graça Freire. Col. Nossos Clássicos. Rio de Janeiro: Livraria Agir, 1962.
ALCOFORADO, Mariana. Cartas Portuguesas. Porto Alegre: L&PM, 2007.
COUTINHO, Afrânio. Introdução à literatura no Brasil 12 ed. Rio de Janeiro: Bertrand, 1988.
D`ONOFRIO, Slvatorio. Literatura ocidental: autores e obras fundamentais. 2 ed. São Paulo: Ática, 2002.
LOUSBERG, H. Elementos da retórica literária. Trad. Rosado Fernandes, R.M. 2 ed.
MOISÉS, M. A Literatura Portuguesa através dos textos. 12 ed. São Paulo: Cultrix, 2006.
OLIVEIRA, Cândido. Súmula da literatura portuguesa. 2 ed. São Paulo: Bibl
SARAIVA, A. J. LOPES História da Literatura Portuguesa. Porto: Porto Editora, 1955

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